A Hora do Ócio é aquela hora em que você poderia estar fazendo qualquer outra coisa, mas preferiu logar na net e ler ou escrever algo, se vai ser produtivo ou não depende unicamente de você. Em meu caso há apenas a vontade de escrever sem a necessidade de haver alguém para ler...
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Kepler 22b - Prólogo
O ano é 2349 e a raça humana já ultrapassou o numero de 20 bilhões de habitantes, 4 bilhões além da capacidade física de nosso planeta.
O primeiro desafio foi o aquecimento global, vencido em 2039 quando finalmente percebemos que, embora não fossem os poluentes emitidos nos céus os causadores deste aumento na temperatura, eles aceleravam o processo geológico de nosso planeta e nos vimos obrigados a aceitar esta realidade após grande parcela das cidades litorâneas do mundo serem tragadas pelo degelo de parte das camadas polares - a Holanda foi o país mais atingido, tendo quase sua totalidade submersa.
Depois veio a poluição. Com cada ser humano produzindo em média 1,8Kg de lixo por dia, estávamos a beira de nos soterrar em dejetos quando em 2077 um brilhante cientista viu a solução na utilização de nanobots para reconstruir estes dejetos a nível molecular e transformá-los em novos produtos, por vezes completamente distintos do produto original.
Então em 2115 veio a falta de espaço físico, quando com uma população de 16,5 bilhões simplesmente não tínhamos mais espaço na Terra para tanta gente.
Felizmente nosso programa espacial já estava maduro e a colônia lunar, estabelecida em 2093, já estava apta a receber melhorias para suportar civis previamente selecionados para inicialmente expandir e, em um segundo momento, receber parte de nossa população já a partir de 2127, algo que continuaria constante e cada vez mais corriqueiro até 2184, quando atingiu uma população de 500 milhões de pessoas.
O primeiro 'homem da Lua' nasceu em 2136 e já em 2140 foi detectado que a população lunar seria diferente da terrestre devido à baixa gravidade deste corpo celestial, causando fragilidade na estrutura óssea do corpo humano e uma espécie de envelhecimento celular acelerado, com pessoas atingindo o fim de sua vida em torno dos 95 anos, enquanto que na Terra, com o avanço da medicina genética aliada à clonagem, a idade média para término das funções celulares girava em torno dos 135 anos, podendo ultrapassar os 150 anos em alguns casos.
Alguns 'homens lunares', nascidos em famílias incapazes de pagar por visitas frequentes à Terra de forma a evitar os problemas mencionados anteriormente, jamais veriam de perto o planeta azul pois, a partir dos 5 anos de idade, a má formação celular já era irreversível e visitar um ambiente de gravidade superior à da Lua significaria uma morte agonizante e inevitável.
Devido à estas questões da colonização lunar, em 2185 a colônia de Marte, iniciada em 2150, foi aberta à população civil seguindo protocolos similares aos aplicados no início da ocupação lunar.
Porém, como Marte possui uma gravidade mais próxima à da Terra, os problemas encontrados na colônia lunar não fariam parte do cotidiano dos 'novos marcianos', como ficaram conhecidos os homens nascidos no planeta vermelho. O problema agora, seria outro, muito mais grave.
Com o solo do planeta Terra já incapaz de sustentar sua população, a Lua e seu solo estéril ofereceu mais problemas do que soluções e Marte, incapaz de fazer crescer algo além de vegetais rasteiros devido a seu solo pobre e sua distância do Sol, mas com uma população crescente e alcançando os 2 bilhões de habitantes, também só fez crescer a escassez de comida.
Em 2105 alguns cientistas já haviam previsto este cenário e tentaram, por décadas sem sucesso, adaptar os nanobots para 'transformar' objetos em matéria comestível, algo que se descobriu ser impossível devido à baixa concentração de nutrientes. Então tentaram utilizar os nanobots para reconstituir dejetos orgânicos de forma que pudessem prover algum sustento, mas foi um sucesso parcial visto que, após reconstituídos algumas vezes, eventualmente também esgotavam-se os nutrientes e a futuras reconstituições apenas produziam matéria inerte.
Foi em 2212 quando decidiu-se pela utilização dos nanobots na reconstituição de corpos humanos desprovidos de energia vital para produção de comida.
Sim, embora parecesse comida 'normal' tanto em sabor quanto em aparência e textura graças à incrível evolução tecnológica dos nanobots, o fato é que havíamos nos tornado uma espécie canibal, utilizando nossos entes falecidos como forma de sustento e cientes de que eventualmente seríamos nós os responsáveis diretos por alimentar nossos descendentes.
Esta situação perdurou por quase um século quando, devido ao aumento populacional marciano, que já ultrapassava os 4 bilhões de habitantes, e a longevidade humana proporcionada por uma avançada medicina, notava-se que, apesar do controle populacional rígido instaurado em 2198, o número de nascimentos ainda era muito maior que o número de falecimentos, apontando para nova crise de escassez de comida em um futuro não muito distante.
Então em 2307, após perdermos cerca de 2 bilhões de pessoas para a fome - o que praticamente inutilizava seus corpos para reconstituição, visto que ao falecer suas carcaças já estavam quase que desprovidas de nutrientes - a humanidade se voltaria a um novo objetivo: um planeta a 600 anos-luz de distância com condições ambientais extremamente parecidas com as da Terra e 2,5 vezes o seu tamanho.
Em 2320 entrava em operação um complexo gravitacional criado por nosso programa espacial visando simular uma gravidade ampliada, dentro do qual seria criado um meio ambiente para nascimento, criação e desenvolvimento de 100 bebês geneticamente melhorados, com maior inteligência, mais resistência física e mais obediência à ordens. Dentre eles 15 seriam escolhidos para serem os astronautas que explorariam Kepler 22b, então no ano de 2349 estes 15 homens das estrelas se prepararam para deixar a Terra em busca da salvação da raça humana.
