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27/04/2013
O ‘briefing’ pré-viagem estava marcado para as 9:00h da manhã e já às 8:50h estavam me ligando para perguntar se eu iria ou não. Chegando lá as 9:02h vi que eu era o último, excetuando o casal que chegaria apenas no período da tarde e então completaria nosso grupo.
Fomos apresentados e o ‘briefing’ em si durou 2h extremamente mal-aproveitadas, visto que as informações necessárias poderiam ser passadas em apenas 30min e os outros 90min foram para mostrar apresentações em Powerpoint visando nos convencer de que o lugar é bonito e vale a pena visitar. Pura estratégia de vendas e por isso as aspas em ‘briefing’.
Oras, se estávamos ali é porque já compramos e pagamos pelo pacote, não precisamos ser convencidos de mais nada!
Além disso, a moça que nos atendeu não tinha o mínimo de jogo de cintura para lidar com pessoas ansiosas – e estávamos sim muito ansiosos pelo dia seguinte!
Enfim, depois de perder 2h de minha vida peguei o isolante térmico junto com o saco de dormir que havia alugado e fui chegar atrasado ao trabalho.
28/04/2013
Apesar de a saída estar marcada para as 5h da manhã eu acordei as 3:30h (já mencionei que estava ansioso, certo? Hehehe) e fui fingir que arrumava mais alguma coisa em minha mochila, que já estava pronta desde 2 dias antes. Aproveitei pra comer alguma coisa também.
As 4:50h saí de casa e fui esperar pela van no local combinado, que chegou as 5:05h. Todo mundo meio dormindo, entrei e fui disparando mensagens no celular para as pessoas mais próximas a mim.
Chegamos em Santa Elena de Uiaren na Venezuela, que para quem não conhece é um equivalente venezuelano a Ciudad Del Este no Paraguai, uma cidade que gira em torno das vendas isentas de impostos. Ali fizemos o transfer pra um Toyota 4x4 no qual foram carregados também nossos mantimentos e seguimos debaixo de muita chuva a Paraitepuy, um vilarejo indígena no Parque Canaima de onde partem a maioria das expedições ao Monte Roraima.
Lá aguardamos o tempo melhorar, mas a chuva insistia e há um prazo para saída, então seguimos debaixo de muita água.
No início seguia tudo bem, mas depois de um tempo comecei a sentir dores nos nervos ciáticos, algo que nunca senti antes, então fiquei com um misto de curiosidade e preocupação. Como as dores aumentavam, fui obrigado a diminuir o ritmo.
Até aí tudo bem, afinal poderia aproveitar melhor as paisagens e tirar mais fotos, mas se o incomodo permanecesse isso iria dificultar sobremaneira minha jornada, então mencionei o fato ao guia durante nossa parada para o lanche à beira de um dos riachos que atravessamos no caminho.
Falando nisso, um ‘lanche’ que resolvi experimentar durante a caminhada foram formigas fritas, oferecidas pelo guia que trazia um pote de maionese cheio delas. Ele disse que tinham gosto de amendoim e exitei por um instante, mas depois lembrei de onde estava e resolvi encarar: de fato tinham sabor parecido com amendoim, mas o problema era o gosto ruim que ficava na boca um tempo depois. Se estivesse com fome eu encararia de novo, mas não recomendaria unicamente pelo sabor hehehe
Aliás, ao final da viagem ficamos sabendo que os nativos se alimentam bastante disso e até vimos algumas crianças ‘caçando’ nos formigueiros, mas foi ao nos deparar com as diversas queimadas e nenhuma plantação ou animal nas pastagens que questionamos o motivo do fogo e recebemos a resposta de que servia para demarcar os formigueiros, mas fugiam ao controle e queimavam tudo.
Não queria questionar a inteligência disso, pois sei que historicamente o ‘homem branco’ fez coisa pior, mas já que queimaram as matas poderiam pelo menos aproveitar a terra pra plantar ou criar alguma coisa...
Chegando no rio Tek nossos carregadores montaram as barracas enquanto tomávamos banho nas águas gélidas do rio - embora na verdade apenas eu e mais uma pessoa tomamos banho de verdade, o resto do pessoal se assustou com a temperatura da água e mal conseguiram se molhar. Eu não tive essa dificuldade, me lembrei das várias vezes que fui obrigado a tomar banho frio no inverno de Floripa quando acabava a energia no bairro e encarei a empreitada numa boa.
Depois de alimentarmos um pouco os insetos locais a beira do rio com nosso sangue, era hora de experimentar a janta preparada pelos carregadores. Conversarmos sobre como foi nosso dia e ouvir o guia a respeito dos planos para o dia seguinte.
Então era hora de encarar o ‘banheiro’ improvisado: uma barraca com um banco furado no qual deveríamos colocar um saco plástico e então depositar as fezes, jogando uma pá de cal para desidratar. Este procedimento seria necessário para não poluir o local, visto que os sacos plásticos deveriam ser transportados de volta à civilização para seu devido descarte.

O mais difícil nessa hora era fazer o ‘numero 2’ sem fazer o ‘numero 1’, dificuldade que eu já antecipava e havia desenvolvido uma ‘tecnica’: bastava fazer o ‘numero 1’ antes, assim não sentiria vontade de fazer tudo junto.
Teve gente que não conseguiu e isso ficou evidente nos sacos cheios de urina misturada com fezes e cal, imagino a dificuldade para transportar isso depois – se é que de fato havia este transporte já que houve relatos de que os nativos enterravam ali mesmo. Se for o caso, deveriam então fazer um 'banheiro seco’ que acredito que seria melhor.
Então fomos para nossas respectivas barracas em torno das 20:00h e dormimos até a manhã do dia seguinte, com previsão de saída para as 7:30h. Digo, a maioria foi dormir, eu ainda estava lutando com o isolante térmico que deveria ser inflável, mas que depois de inflado parecia um balão redondo e furado.
Improvisei dobrando a parte das pernas para ficar menos desconfortável nos quadris, quem já dormiu em barracas sabe como é doloroso dormir de lado no chão e o quanto isso atrapalha na caminhada do dia seguinte - e eu já não estava legal!
29/04/2013
Acordamos todos entre 5h e 6h da matina e alguns foram tentar fazer o que não conseguiram no dia anterior – o banquinho do ‘numero 2’ intimidou bastante! hahaha
Depois tomamos café, conversamos um pouco e seguimos em frente. Acho que foi durante o café neste dia que eu percebi que o guia venezuelano falava cada vez menos portugues e cada vez mais espanhol, num portunhol quase ininteligivel. Decidi que a partir dali eu também arriscaria meu portunhol e assim o fiz até o término da viagem. Quem ouvia talvez pensasse que eu era fluente na língua, tamanha confiança na hora de falar hehehe
O primeiro desafio do dia era atravessar o rio Tek, logo ali ao lado do vilarejo indígena.
A travessia em si foi tranquila para todos, o rio estava baixo e relativamente calmo, mas foi ali que tive o primeiro problema com bolhas nos pés já que o tenis que eu havia levado exclusivamente para atravessar os rios me causou uma bolha na região do calcanhar direito.
Mais tarde eu descobriria que aquele seria o menor dos meus problemas, pois acabaria não incomodando mais.
Depois da travessia seguimos viagem e após alguns quilometros minha dor nos nervos ciáticos começava a ficar insuportável. Pensei que poderia ser a mochila que estava mal ajustada ou colocada na altura errada, mas acredito que eram meus meses de sedentarismo desde que cheguei em Boa Vista que estavam cobrando seu preço.
Independente disso, conversando com outra pessoa que também estava tendo dificuldades, concluímos que pediríamos ajuda aos carregadores.
No meu caso isso ajudou, mas infelizmente não resolveu: as dores amenizaram, mas talvez devido ao esforço até ali não pararam e fui ficando mais e mais para trás, o que consequentemente significava menos descanso nas pausas do grupo, visto que quando eu chegava eles já estavam se preparando para partir...
A travessia do rio Kukénan foi divertida, houve pausa para nadarmos, tirarmos fotos, descansarmos.
Na hora de saírmos, cada um a seu ritmo, foi possível perceber a falta que fez um ajudante do guia, algo pelo que pagamos e não recebemos já que só havia um guia conosco: uma pessoa saiu sozinha e errou o caminho, teria ficado perdida se outro membro do grupo não tivesse notado e avisado ao guia.
O objetivo deste dia era chegar ao acampamento na base da montanha e, apesar do trajeto ser menor que no dia anterior, foi muito mais sofrido por ser em grande parte subida. Mesmo já sem bagagem nas costas, senti muitas dores e parei bastante no caminho, por conta disso cheguei meio tarde no acampamento e quando fui para o banho aquela o que deveria ser água fria estava verdadeiramente congelante, com perigo real de hipotermia – e ainda voltou a chover!
Entrei na água só até os joelhos e me lavei como pude, mas não consegui me enxugar porque a toalha se molhou com a chuva então fui molhado e gelado pro acampamento. Como havia acabado de me recuperar de uma gripe fiquei com receio de recaída, mas felizmente isso não aconteceu.
Então a chuva deu uma pausa, colocamos nossas roupas para secar penduradas onde quer que fosse possível, tiramos muitas fotos, jantamos (é jantar às 18:00h? Hehehe) e fomos dormir.
Neste dia descobri que minha camera não gostava de umidade, pois se recusava a ler o cartão de memória. Testei outro cartão e o problema permanecia, então o paliativo foi usar a memória interna, tirar 10-12 fotos e então transferir para o cartão quando a camera resolvesse ler.
Não tirei tantas fotos quanto gostaria, mas acredito ter tirado o suficiente apesar desta dificuldade. A única que faltou foi uma foto do ‘sapito’, que aparecia pra todo lado em cima da montanha quando a camera estava com problemas e depois se escondia quando ela estava funcionando...
30/04/2013
Este seria o dia D, que enfim subiríamos a montanha numa trilha de aproximadamente 5km de subidas ingremes e escorregadias, longos trechos na mata local, passagens por baixo de cachoeiras com pedras soltas, etc. Apreensão e ansiedade pareciam tomar conta do grupo.
E foi por conta dos trechos ingremes que mais sofremos, mas o mais perigoso foi sem duvida passar embaixo da cachoeira. Muita água por causa da chuva no dia anterior, muitas pedras soltas e muito receio porque o risco era real. Acho que foi o único trecho que atravessamos todos juntos, sendo que nos demais o grupo estava bem disperso.
De fato, pelo grupo estar bem disperso, quando cheguei próximo do topo estava sozinho e não sabia por onde seguir no meio daquela imensidão de pedras. Por vezes conseguia ouvir as vozes dos outros membros que já estavam no topo, mas não conseguia discernir onde estavam. Foi apenas com a chegada de outra pessoa do grupo que juntos resolvemos tentar algum caminho antes que voltasse a chover. Este foi outro momento em que um ajudante de guia fez falta.
Foi na subida, após atravessar riachos e cachoeiras e ficar com as botas verdadeiramente encharcadas, que comecei a ter sérios problemas com meus pés. Até então, com as botas secas, estava livre de bolhas e quaisquer outros problemas, mas bastou entrar água que começou a complicar. Talvez uma bota que seque mais rápido combinada com meias especiais para serem usadas molhadas evitaria maiores problemas, mas as minhas eram Coolmax especiais anti-atrito e nada mais.
Chegando no topo e encontrando o restante do grupo ficamos brincando com os passarinhos e tirando fotos enquanto o guia não chegava. Ele havia ficado para trás porque um dos membros estava com problemas nas articulações e com enormes dificuldades em prosseguir.
Estes passarinhos que mencionei eram um tipo de pardalzinho da região, extremamente dócil e ‘corajoso’chegava muito perto da gente pra buscar comida, chegando a bicar a mão de um de nós. Eu tentei fazer com que comesse em minha mão, mas chegou uma pessoa e assustou o bichinho, então desisti.
Outra coisa que nos surpreendeu é que devido ao que lemos sobre a montanha esperávamos algum tipo de planície rochosa no topo, mas estávamos bem errados. O terreno lá em cima é muito acidentado e qualquer caminhada exige esforço e muita atenção para não escorregar e se quebrar.
Quando o guia chegou seguimos em direção ao refúgio planejado apenas para descobrirmos que nosso ‘hotel’ (na verdade cavernas ou buracos na pedra) estava ocupado, então acampamos no ‘Hotel’ Indio, próximo dali.
Como ainda era cedo almoçamos e então fizemos nosso primeiro passeio em cima da montanha, em direção às ‘Jacuzzis’, que são pequenas piscinas naturais com águas límpidas e gélidas. Mais uma vez foram poucos a encarar um banho de verdade devido à baixíssima temperatura da água, acho que só eu e o guia nos banhamos pra valer.
O lugar em si era muito bonito, mas notei uma coisa que viria se tornar a tonica dos passeios ali em cima: tudo muito rápido e corrido, sempre olhando para baixo e prestando bastante atenção onde se pisa para não escorregar e se machucar, então não havia nenhum instante de contemplação no caminho, só nos pontos de chegada. Eu achei isso extremamente ruim, houvesse mais tempo para curtir a paisagem creio que todos nós ficaríamos mais satisfeitos com o passeio como um todo.
Voltamos ao acampamento (era engraçado dizer que estava na hora de voltar pra caverna hehehe) e desta vez o banquinho do ‘numero 2’ não foi montado em uma barraca, mas sim em um lugarzinho mais escondido e aberto, quem resolvesse fazer alguma coisa ali teria uma vista até boa da montanha – se conseguisse esquecer o motivo de estar lá sentado hahaha
A natureza chamou e eu fui escalar uma parede que era caminho do banquinho, mas cansado e distraído escorreguei na hora de subir e machuquei meu joelho esquerdo. Na hora não chegou a doer nada, então não dei muita atenção pra isso.
Mais tarde jantamos, batemos papo e fomos dormir. Só que desta vez meu desafio para dormir era outro: a barraca havia sido montada em um terreno com desnível e um ‘buraco’, impossibilitando que duas pessoas dormissem ali a menos que uma se jogasse no buraco ou que ambas ficassem em uma posição que rolariam pra cima uma da outra.
Como éramos dois do sexo masculino eu não estava disposto a ter ninguém rolando pra cima de mim, então depois de cerca de 1h tentando dormir acabei desistindo. Vestido com toda roupa de frio que havia levado (calça e camisa ‘segunda pele’ + casaco fleece e meias especiais para clima frio) juntei meu saco de dormir, meu isolante térmico furado e fui dormir embaixo da pedra, entre outras duas barracas.
Naquele momento o frio não incomodava, minha principal preocupação era com insetos peçonhentos, mas como não havia alternativas fingi acreditar que isto não seria problema e dormi ali mesmo.
01/05/2013
Depois da péssima noite de sono, acordando diversas vezes com um ronco ensurdecedor e com o frio desgraçado que fez na madrugada, finalmente levantei ao ouvir que o pessoal nas outras barracas havia acordado. A conversa do momento era tentar descobrir quem roncava daquele jeito, realmente estava atrapalhando o sono de todos e ficaram ‘culpando’ uns aos outros, sobrou até pra mim!
Acho que foi neste dia que o café da manhã foi uma espécie de croquete feito com uma massa branca parecida com tapioca, mas com gosto característico. Acompanhava fatias de mortadela e queijo venezuelanos, ambos de sabor bem forte. E pra complementar, uma tigela de sucrilhos com um tipo de mingau de aveia sem gosto de aveia, além de café com leite.
Não, o sabor e a aparencia não eram lá muito convidativos, mas a trilha do dia era de aproximadamente 24km ida-e-volta, com almoço no caminho (vai saber onde e quando!) e a perspectiva de passar fome não era lá muito atraente também, então o que não consegui comer eu tratei de engolir.
Por causa da caminhada com os pés molhados no dia anterior começaram a surgir algumas bolhas em meus pés e pedi ajuda ao guia, já que no briefing houve insistência de que se tivessemos este problema deveríamos pedir auxilio. Só que ele não foi lá muito solícito, disse que não poderia mexer porque dali a pouco começaríamos a andar e poderia machucar mais, que seria melhor então proteger com esparadrapo e furar apenas de noite.
Este foi o dia que vimos formações rochosas bem características, que pareciam diversas coisas diferentes dependendo do ponto de vista de quem ve. Eu enxerguei desde esfinges a espaçonaves, índios e até um AT-AT Walker dos filmes Star Wars!
Mas na verdade não foi lá muito legal, pois como a distância a ser percorrida era grande foi tudo muito corrido, só havia tempo de admirar a paisagem nos momentos de descanso, que não eram longos. Nem mesmo depois de almoçar em cima das pedras houve muito tempo de descanso.
Aliás, o almoço foi um macarrão frio que o carregador foi herói em nos encontrar a tempo no local combinado, já que ali não haveria meios de fazer comida alguma. É incrível a habilidade que esses caras tem de correr nas pedras em cima da montanha e mais inacreditável ainda a capacidade de carga que carregam, chegando a 30-35kg nas costas! Realmente impressionante!!
Por tudo isso e por se tratar de um ser humano, foi chato ver todos nós nos empanturrando de macarrão enquanto ele esperava pra comer o que sobrasse. Quando vi o cara comendo macarrão ‘branco’ sem nada, me senti meio mal com aquela situação...
Mas admito que minha maior preocupação era com meu joelho, aquele que havia machucado no dia anterior.
Pra andar em terreno plano eu não sentia dor nenhuma, mas como cerca de 80% do caminho era sobre as rochas, com alguns saltos sobre fendas enormes, não demorou até doer bastante – e as bolhas também estavam incomodando bastante!
Pior, eu sabia que me deixariam pra trás de novo e que não havia muito tempo pra melhorar, então engoli meu almoço rapidão e pedi ajuda ao guia, que desta vez me ajudou. Ele lascou um tipo de gel analgésico e fez uma massagem rápida, ajudou bem por algum tempo.
Então seguimos pro Vale dos Cristais.
Acontece que, salvo engano, poucos perceberam quando estávamos no Vale dos Cristais, isso porque já havíamos passado por áreas com bastante cristais antes e a verdade é que o Vale dos Cristais já estava bem devastado, não parecia ter nada de especial por ali como teoricamente teve no passado. Assim eu e outras pessoas não tiramos nenhuma foto, esperando chegar em algum lugar mais ‘mágico’...
Chegamos então ao Ponto Triplo, local de intersecção entre as fronteiras da Venezuela, Brasil e Guyana. O local em si não tem nada de diferente do que haviamos visto até então, só um marco cravado nas pedras. Mas era um bom ponto para fotos, então foi isso que fizemos e ficou ainda mais legal com a bandeira do Brasil que eu havia levado.
Aliás, essa bandeirinha serviu pra esquentar um pouco minhas orelhas já que eu não ouvi o guia avisando pra levar capa de chuva e estava passando muito frio com todo aquele vento e chuva gelados. E não fui o único, então presumo que houve mesmo falha em avisar o grupo como um todo.
Dali fomos para el Foso, este sim um lugar excepcional! Uma pena que a chuva tornava a descida perigosa demais, então tivemos que apreciar apenas a vista de cima.
Palavras não descrevem a beleza e imensidão daquelas cavernas parcialmente submersas, com suas colunas naturais e cachoeiras formadas pela água das chuvas. Admito que fiquei decepcionado por não podermos descer, mas não sei se eu seria capaz com joelhos e pés ruins como estavam.
E foi depois disso que começou o verdadeiro martírio, pois ali era o ponto mais extremo do dia e de lá caminharíamos direto pro refúgio nas cavernas, sem descanso!
Isso foi determinante para mim, já que fiquei tão machucado que decidi não participar da caminhada do dia seguinte, na intenção de me recuperar para a descida da montanha que certamente seria extenuante.
Na volta ficamos eu e mais duas pessoas para trás, nos ajudando a atravessar as dificuldades do trajeto seguidos de perto pelo guia, preocupado com nosso bem-estar. Quando finalmente chegamos no refúgio vi que minha barraca havia sido movida para outro local, sendo necessário atravessar uma pequena trilha montanhosa para chegar lá. Desanimei ainda mais, sabendo que teria que fazer isso toda hora com aquela dor.
E falando na dor, esperei o guia acabar de preparar o jantar junto com os carregadores para outra vez pedir ajuda com minhas bolhas, mas ele novamente se negou, desta vez dizendo que eu deveria esperar o dia seguinte para estourar as bolhas – com esta contradição ficou claro a falta de vontade, então eu me resolvi sozinho.
Neste dia não houve outro banho além daquele dado pela chuva, então improvisei com os lenços umedecidos para limpeza de bebês e fui jantar para depois dormir, todo dolorido.
02/05/2013
Pode ser impressão minha, mas acho que neste dia os animos de todos estavam amenizados depois do dia anterior. Independente disso, eu já havia decidido que não sairia para poder me recuperar pensando na descida do dia seguinte, então aproveitei também para improvisar uma lavada em minhas roupas assim como tomar um banho.
Lavar as roupas e calçados foi fácil, como não havia os meios corretos pra isso eu apenas dei uma enxaguada pra tirar a sujeira superficial e me dei por satisfeito. Tomar banho é que foi mais complicado, primeiro porque o Sol resolveu se esconder durante boa parte do dia e segundo porque na lagoinha (uma grande poça de água formada pelas chuvas) não havia profundidade suficiente para entrar, então teria que tomar um 'banho de caneco’ com aquela água gelada naquele vento frio!
Depois coloquei as roupas e calçados nas pedras do refúgio e fiquei ali, observando a paisagem e torcendo pro Sol aparecer e secar pelo menos as minhas botas enquanto conversava com a outra pessoa que também decidiu não encarar a trilha do dia.
O lado ruim foi que depois de passar dias alertando a todos sobre os perigos do Sol aqui no Norte, que não deveria ser subestimado, fui eu a me descuidar e fiquei sem protetor solar nos poucos momentos que o Sol apareceu. Meu braço e rosto queimaram um pouco, mas foram minhas canelas que sofreram com queimaduras de 1º grau – quem mandou ser branquelo e descuidado!
Mas a decisão de não sair se provou ser a mais acertada quando o pessoal retornou para o almoço dizendo que o tempo ficou nublado por todo o caminho, estragando o passeio.
Além disso, o passeio da tarde foi cancelado pelo mesmo motivo, já que a neblina ficou ainda mais densa e seria muito perigoso tentar subir o ponto mais alto da montanha como era planejado. Sobrou então ao pessoal do grupo dar uma passeada em torno do refúgio, ir até as Jacuzzis tomar banho, etc.
Eu fiquei por ali mesmo, quietinho e me recuperando. Enquanto isso o guia foi tirar um cochilo e descobri quem era o autor daqueles roncos ensurdecedores das noites anteriores! Hahaha
03/05/2013
Nesta noite eu dormi muito bem e, segundo me disseram os outros, não fui o único. Talvez estivéssemos aliviados com a perspectiva de voltar à civilização ou talvez fosse a sensação de ‘dever cumprido’, mas o fato é que foi a melhor noite de sono.
Ainda bem, já que a caminhada a seguir seria longa, direto do topo da montanha até o vilarejo indígena ao lado do rio Tek apenas parando para comer no acampamento à base da montanha e logo seguindo em frente.
Mais que longa, seria extenuante e perigosa já que com as chuvas da noite anterior, que pareciam querer continuar durante o dia, era sabido que as cachoeiras estariam mais fortes, os riachos mais cheios e o caminho na descida mais escorregadio, então todos do grupo estavam bastante apreensivos.
Iniciamos a descida bem cedo e com o grupo já bem disperso. Acredito que alguns estavam ansiosos e por isso sairam bem na frente enquanto que outros preferiram ser mais cuidadosos e seguiram mais atrás. Eu fiquei sozinho, mas no meio do caminho, nem muito a frente, nem muito atrás, bem devagar por causa de meus pés que estavam doendo bastante na descida. Só encontrei com outra pessoa do grupo quando ela parou por não saber onde a trilha seguia – que acabei descobrindo meio que na marra e então seguimos juntos por um bom trecho.
A ironia ficou por conta das meias que escolhi usar neste dia. Com muita ignorancia decidi usar a única meia seca que tinha sobrado e coloquei um saco plástico por cima para evitar que se molhasse. Aham, até parece que não molharia com tanta água que peguei nas cachoeiras e mais ainda com a chuva que veio logo depois, pra não mencionar a travessia dos riachos...
Só que o trecho com cachoeiras e riachos não foi o mais difícil, apesar de realmente as cachoeiras derramarem muito mais água que antes e os riachos estarem com uma correnteza muito forte. Foi complicado sim, mas o mais difícil foi o último trecho, de paredes em argila escorregadia com quase 90º de inclinação.
Pensei que tivesse sido ruim só pra mim, com meus pés e joelho estropiados, mas na hora do almoço os relatos de que alguns escorregaram e se machucaram me fez pensar que eu me saí foi bem, por não ter acontecido nada demais comigo.
Neste dia a refeição não foi bem um almoço, era quase um pate com sardinhas e mais alguma coisa que sinceramente não me lembro o que era, talvez fosse macarrão. Como não havia tempo de armar acampamento e é proibido acender fogueiras, houve necessidade de improvisar com algo que fosse frio e ao mesmo tempo ‘comível’, então foi isso mesmo.
E não sei se estávamos com uma fome absurda, mas tanto eu quanto os outros gostamos muito do que comemos, estava realmente muito bom!
Acho que tem um ditado que diz ‘barriga cheia, pé na areia’ ou algo assim, e foi o que fizemos. Acabamos de comer, conversamos um pouco e logo partimos novamente.
O próximo trecho seria mais ou menos tranquilo, com algumas subidas e muitas descidas, o que facilitou um pouco embora eu tenha começado a sentir dores novamente.
Chegando ao rio Kukénan, a correnteza estava bem forte a ponto de haver necessidade de alguns atravessarem de canoa enquanto outros atravessaram a nado, ainda que com certo receio. As mochilas e toda a tralha por outro lado tiveram que ser atravessadas obrigatoriamente de canoa, o que quase causou um acidente quando a canoa perdeu o controle e por pouco não acerta uma pessoa que estava de costas dentro do rio.
Depois da travessia alguns alimentaram um pouco os insetos com seu sangue e seguimos até o rio Tek, este sim com uma travessia perigosa. Tão perigosa que colocaram uma corda para atravessarmos e ainda assim com bastante dificuldade. Uns gringos devem ter achado interessante isso tudo e ficaram filmando por um bom tempo.
Depois ficamos sabendo que duas pessoas do grupo tinham tentado a travessia sozinhos e sem corda. Como estávamos com um guia a menos, não havia ninguém para dizer que aquilo seria perigoso e quase se afogaram, sendo salvos por um nativo local.
Ao final do dia minha maior preocupação eram mesmo minhas bolhas, havia uma embaixo da unha que estava muito dolorida. Isso e o calçado sempre enxarcado estavam incomodando demais e me forçando a pisar errado, o que sobrecarregava meus joelhos. Lembro que esta foi minha pior noite de sono, seja pela ansiedade do último dia ou pela preocupação em conseguir completar a trilha, mas dormi muito mal...
04/03/2013
A caminhada do último dia em direção a Paraitepuy, ponto final da trilha no qual embarcaríamos no 4x4 de volta pra casa, foi bem tranquila em sua maior parte, sem nada demais a relatar. Foi só nos kms finais, onde tivemos boas descidas para vencer, que estourei de vez meus joelhos ficando num estado que mal conseguia andar, com passinhos bem curtos e parando a cada 5-10min.
A situação ficou tão crítica que uma das pessoas do grupo, com bastante experiencia em trilhas, ficou preocupado e resolveu me esperar emprestando seus bastões de caminhada e me acompanhando para garantir que eu conseguiria chegar – e ainda bem que devia faltar apenas cerca de 1km!
Enfim chegamos e enquanto todos tiravam fotos eu só queria saber de tirar aquela bota e relaxar os pés, sentado para poder amenizar as dores nos joelhos também. Acabei não fazendo parte da foto do grupo com o guia por causa disso, mas para mim o que importava mesmo era que o sofrimento havia acabado...
Dali seguimos para uma comunidade indígena na Venezuela, acho que o nome era Kumarakapay. Lá almoçamos um prato com ¼ de frango por míseros R$7,00 incrível a diferença monetária.
Então trocamos de veículo novamente em Santa Elena de Uiaren, transferindo tudo para a van e demos uma passadinha no Duty Free, onde todos confirmaram aquilo que eu já digo há tempos: ali só tem cachaça e perfumes, nada mais!
Chegando em Boa Vista combinamos de nos encontrar pra um jantar na Peixaria Tropical, onde a comida é boa e o atendimento é péssimo!
Ali nos vimos bem limpinhos e quase irreconhecíveis em comparação com os dias anteriores. Então comemos, conversamos e nos despedimos...
OBS1: Depois de tudo, hoje posso concluir que de todas as agruras que passei grande parte poderia ter sido evitada com maior planejamento.
Tivesse planejado por meses como fiz quando fui a Machu Picchu, teria concluído que deveria comprar um Anorak (muito mais útil que o poncho comprado pra ocasião), teria levado meias especiais pra calçar botas molhadas (foi notável a diferença que senti quando passei a andar com os pés molhados) e certamente me lembraria que eu estava cerca de 10kg mais pesado e que seria uma péssima idéia ainda querer carregar uma mochila de 10-12kg nas costas, enquanto que no Peru não carreguei nada.
Fiquei com 4 bolhas nos pés, mas o pior foram as 3 unhas que caíram, isso sim doeu e incomodou bastante! Fora que no dia seguinte, já em casa, notei que meus tornozelos estavam bem inchados, provavelmente devido ao esforço de andar todo torto com os pés e joelhos estropiados...
Subestimei as dificuldades e paguei o preço, espero me lembrar disso em uma eventual próxima vez – pra outro lugar, porque ali não volto mais hahahaha
OBS2: Mencionei só as refeições ‘diferentes’ com o intuito de mostrar o inusitado da coisa, mas de uma forma geral fomos muito bem alimentados e com boa comida – ainda que sempre preparada com água das chuvas.
Se no Peru perdi peso, não acredito ter emagrecido sequer 1kg nessa trilha e isso devido à fartura na alimentação oferecida.
Mais fotos aqui: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.10200660634185611.1073741828.1453315514&type=3